ALERGIA ALIMENTAR (APLV)

I-INTRODUÇÃO:
A alergia alimentar é uma reação adversa à (s) proteína (s) alimentar (es) caracterizada por uma reatividade imunológica anormal em pacientes predispostos geneticamente.
A resposta imunológica gera variedade de sintomas e manifestações clínicas expressas em diversos sistemas orgânicos, tais como a pele, o trato respiratório e o gastrointestinal. A identificação e a eliminação da (s) proteína (s) alêrgenica ( s) da dieta devem levar à resolução dos sintomas. Na criança, o maior representante alimentar é a proteína do leite de vaca, embora seja comum a presença de alergia a várias proteínas.( 1,2,3,4)
II-NOMENCLATURA:
A Academia Européia de Alergia e Imunologia (AEAI) publicou, recentemente , uma revisão da nomenclatura da AA, distinta da utilizada pela literatura americana, sendo a européia escrita, a seguir entre parênteses e em itálico.
A reação adversa a alimentos (hipersensibilidade alimentar) inclui qualquer reação anormal após a ingestão de alimentos e pode ser resultado de intolerância alimentar
( hipersensibilidade alimentar não alérgica) é a resposta adversa causada por algumas características do hospedeiro, como no caso de alterações metabólicas (ex: deficiência de lactase). A hipersensibilidade alimentar/alergia ( alergia alimentar) compreende reações imunológicas adversas que podem ser devidas a mecanismos imune mediado por IgE ou não mediado por IgE. Reações tóxicas podem mimetizar as reações de hipersensibilidade alimentar e se devem à presença de toxinas contaminantes nos alimentos.
( Ex. Histamina no envenenamento do peixe) ou substâncias farmacológicas contida nos alimentos ( Ex: Tiramina nos queijos velhos), que podem afetar a saúde de alguns indivíduos, quando ingeridos em doses elevadas. A classificação do tipo da alergia alimentar pode ser:
Mediada por IgE (tipo I) e não mediada por IgE que, por sua vez, pode ser caracterizada pela formação de complexos imunes (tipo III) ou mediada por células (tipo IV).(1,2,6,7)
III-PREVALÊNCIA:
A prevalência da AA (alergia alimentar) vem aumentando na literatura americana, tornando os pediatras familiarizados com o seu diagnóstico e tratamento.
A prevalência da AA é maior nos primeiros anos de vida, afetando cerca de 6% das crianças abaixo de 3 anos de idade. Comumente a maioria das crianças com alergia à proteína do leite de vaca (APLV) inicia as manifestações clínicas no primeiro ano de vida e desenvolve a tolerância, em 80% dos casos, aos 5 anos de vida. Cerca de 60% das crianças com APLV apresentam reações alérgicas mediadas por IgE, 25% delas mantêm esta sensibilidade até a segunda década de vida e em 35% dos casos, estes pacientes também irão manifestar alergia a outros alimentos.(3,6)
IV- DIAGNÓSTICO:
A história clínica detalhada continua sendo a principal fonte para o processo diagnóstico, permitindo correlacionar o sintoma e a ingestão do alimento e o provável mecanismo alergênico envolvido. Além disso, em casos selecionados, com provável alergia alimentar mediada por IgE, testes cutâneos (vide figura A) ou Rast e exposição alimentar duplo-cega, placebo-controle podem ser de valia.
O diário da dieta é útil complemento da história médica, especialmente em doenças crônicas. A dieta de eliminação do (s) alérgeno (s) tem o objetivo diagnóstico e terapêutico.
O exame físico deve ser iniciado pela pele, à procura de dermatite atópica (eczema) ou urticária, especialmente em dermatite atópica grave e urticária temporal relacionada à ingestão de alimentos. (1,2,4,5,6,7,8) ( vide figura B):
TESTE CUTÂNEO ( fig.A)

(Fig.B )
Quadros clínicos que podem representar alergia alimentar: v Resposta gastrintestinal imediata (prurido oral, vômitos, diarréia) após a ingestão de alimentos particulares; |
V- TRATAMENTO:
Uma vez feito diagnóstico de AA, a terapia estabelecida é a eliminação do alérgeno.
Os pais e a própria criança, em idade que permita a compreensão, devem ser educados para que não ofereçam a seus filhos e os mesmos não ingiram os alimentos alérgenos, além da orientação de leitura de rótulos dos alimentos, reconhecimento precoce dos sintomas alérgicos e controle das reações anafiláticas.
A terapia em crianças com AA requer a seleção de uma fórmula alternativa.
As fórmulas infantis indicadas no tratamento de AA, são aquelas toleradas por pelo menos 90% ( com 95% de confiança) das crianças com APLV. Este critério é preenchido pelas fórmulas extensivamente hidrolisadas e de aminoácidos.
A maioria das crianças com APLV mediada por IgE, irá tolerar a fórmula de soja (86%), mas o nível de tolerância à soja é baixo (50%) naquelas com APLV mediada por células (não IgE).
As crianças com APLV verdadeira também podem reagir às fórmulas parcialmente hidrolisadas e à maioria das fórmulas de leite de mamíferos ( carneiro e cabra), assim, nenhuma dessas fórmulas é uma boa alternativa. A maioria das crianças com APLV (95%) irá tolerar fórmulas extensivamente hidrolisadas, mas para as poucas que ainda continuam a reagir em virtude da presença de resíduos alergênicos, uma fórmula de aminoácidos é necessária.( 1,2,3,5,6,7,8)
VI- PREVENÇÃO DA ALERGIA ALIMENTAR:
Atualmente, a Academia de Pediatria Americana recomenda que crianças com alto risco de AA sejam alimentadas com leite materno, e as mães lactantes evitem amendoim, nozes, frutos do mar, chocolate, leite de vaca e derivados, morango, para impedir a sensibilização através do leite materno, com introdução de sólidos após 6 meses de vida é que os grandes alérgenos, tais como amendoim, nozes, frutos do mar e leite de vaca, sejam introduzidos sómente após os 3 anos de vida.
Conclui-se que na falta do aleitamento materno, as crianças com história familiar de atopia beneficiam-se com fórmula infantil parcialmente hidrolisada, uma vez que elas reduzem a freqüência da sensibilidade às proteínas do leite de vaca. (1,2,3,4,5,6,7,8)
VII-COMPOSIÇÃO DO LEITE MATERNO:
O leite materno é um líquido rico em gordura, minerais, vitaminas, enzimas e imunoglobolinas que protegem contra doenças. Apesar do leite maduro ser formado em 87% por água, os restantes 13% são uma poderosa combinação de elementos, fundamentais para o crescimento e desenvolvimento da criança.
Recém-nascidos perdem 25% do calor do seu corpo através da evaporação de água dos seus pulmões e pele. A maioria dos recém-nascidos vão mamar entre 9 e 11 vezes por dia, mantendo, facilmente, o equilíbrio de fluidos no corpo. A gordura no leite humano proporciona uma fonte de energia para seu crescimento e desenvolvimento, proporciona o colesterol necessário e ácidos essenciais de gordura. O leite materno é rico em ácidos graxos insaturados de cadeia longa, importante para o desenvolvimento e mielinização do cérebro. Ácido aracdônico e linoléico, gorduras poliinsaturadas, existem em maiores concentrações no leite humano do que no leite de vaca, ambos importantes na síntese de prostaglândinas.
As proteínas do leite humanas são estruturais e qualitativamente diferentes das do leite de vaca. Do conteúdo protéico do leite humano 80% é lactoalbumina, enquanto que no leite de vaca essa proporção é de caseína. A relação proteínas do soro / caseína do leite humano é aproximadamente 80/20, a do leite bovino é 20/80. A baixa concentração de caseína no leite humano resulta na formação de coalho gástrico mais leve, com flóculos de mais fácil digestão e com reduzido tempo de esvaziamento gástrico.
O leite humano contém, também, diferentemente do leite de vaca, maiores concentrações de aminoácidos essenciais de alto valor biológico (cistina e taurina) que são fundamentais ao crescimento do sistema nervoso central. Isso é particularmente importante para o prematuro, que não consegue sintetiza-los a partir de outros aminoácidos por deficiência enzimática.
O principal carboidrato é a lactose com mais de 30 açúcares já foram indentificados no leite humano, como a galactose, frutose e outros oligossacarídeos. A concentração de lactose é de 4% no colostro e de até 7% no leite maduro. A lactose facilita a absorção de cálcio e ferro e promove a colonização intestinal com Lactobacillus bifidus.
O leite materno nem sempre tem exatamente a mesma composição. Há algumas modificações importantes e normais. A composição do leite também apresenta pequenas variações com a alimentação da mãe, mas essas alterações raramente
têm algum significado. (2,4,8)
- Colostro
Propriedade |
Importância |
Rico em anticorpos |
protege contra infecções e alergias |
Muitos leucócitos |
protege contra infecções |
Laxante |
expulsa o mecônio, ajuda a prevenir a icterícia |
Fatores de crescimento |
acelera a maturação intestinal, previne alergia e intolerância |
Rico em vitamina A |
reduz a gravidade de algumas infecções (como sarampo e diarréia); previne doenças oculares causadas por deficiência de vitamina A |
De: OMS/CDR/93.6
Nos primeiros dias depois do parto as mamas secretam colostro. O colostro é amarelo e mais grosso que o leite maduro e é secretado apenas em pequenas quantidades. Mas isto é suficiente para uma criança normal e é exatamente aquilo de que precisa para os primeiros dias. Contém mais anticorpos e mais células brancas que o leite maduro.
Dá a primeira “imunização” para proteger a criança contra a maior parte das bactérias e vírus.
O colostro é também rico em fatores de crescimento que estimulam o intestino imaturo da criança a se desenvolver. O fator de crescimento prepara o intestino para diferir e absorver o leite maduro e impede a absorção de proteínas não digeridas. Se a criança recebe leite de vaca ou outro alimento antes de receber o colostro, estes alimentos podem lesar o intestino e causar alergias.
O colostro é laxativo e auxilia a eliminação do mecônio (primeiras fezes muito escuras). Isto ajuda a evitar a icterícia.
colostro é exatamente o que o bebê precisa nos primeiros dias!
Leite Maduro :
Em uma ou duas semanas, o leite aumenta em quantidade e muda seu aspecto e composição. Este é o leite maduro que contém todos os nutrientes que a criança precisa para crescer. O leite materno maduro parece mais ralo que o leite de vaca,
o que faz com que muitas mães pensem que seu leite é fraco. É importante esclarecer que esta aparência aguada é normal e que o leite materno fornece água suficiente, mesmo em climas muito quentes.
Leite do começo e leite do fim :
O leite materno é tão complexo e impossível de ser imitado, que sua composição muda até mesmo durante a mamada!
Leite do Começo:
O leite do começo surge no início da mamada. Parece acinzentado e aguado.
É rico em proteína, lactose, vitaminas, minerais e água.
- Leite do Fim:
O leite que surge no final da mamada parece mais branco do que o leite do começo porque contém mais gordura. A gordura torna o leite do fim mais rico em energia. Fornece mais da metade da energia do leite materno.
A criança precisa tanto do leite do começo quanto do fim para crescer e se desenvolver. É importante deixar que ela pare espontaneamente de mamar. A interrupção da mamada pode fazer com que receba pequena quantidade de leite do fim (e , consequentemente, menos gordura). (2,4,8)
Tabela com os Principais Componentes Imunológicos do Leite Materno
Componentes |
Mecanismo |
IgA Secretora |
Impermeabilização antisséptica das mucosas (digestiva, respiratória, urinária) |
Lactoferrina |
Ação Bacteriostática (retirada de ferro) |
Lisozima |
Ação bactericida (Lise das bactérias) |
Macrófagos |
Fagocitose (engloba as bactérias) |
Fator bífido |
Lactobacilos – ácidos orgânicos: bactericida. |
O leite de vaca, também contém fatores imunológicos de ótima qualidade, mas
para o bezerro. Esses fatores só funcionam para a própria espécie, ou seja, não
vale de um animal para outro de espécie diferente. Contudo, alguns desses fatores até poderiam funcionar, mas eles são destruídos pela armazenagem e pela fervura
do leite. (2,4,8)
Tabela de Comparação do leite materno com outros leites : OMS/CDR/93.6
|
Leite Humano |
Leite Animal |
Leites artificiais |
Propriedades |
presente |
ausente |
ausente |
Fatores de Crescimento |
presente |
ausente |
ausente |
Proteína |
Quantidade adequada, |
Excesso, |
parcialmente modificado |
Lipídeos |
Suficiente em ácidos graxos essenciais, lipase para digestão |
Deficiente em ácidos graxos essenciais, não apresenta lipase |
Deficiente em ácidos graxos essenciais, não apresenta lipase |
Minerais |
Quantidade correta |
em excesso |
parcialmente correto |
Ferro |
Pouca quantidade, bem absorvido |
Pouca quantidade, mal absorvido |
adicionado, mal absorvido |
Vitaminas |
Quantidade suficiente |
Deficiente A e C |
vitaminas adicionadas |
Água |
suficiente |
Necessário extra |
|
Outros dados sobre composicão do leite materno:
- De acordo com a "Iowa Extension Service", dos EUA, cada colher de chá de leite materno possui 3.000.000 de células que matam germes;
- O primeiro leite que o bebê toma, no comecinho da mamada é mais "leve", tem mais volume e menos gordura e calorias, já. no final da mamada, o leite é rico em gordura e calorias e tem menor volume. É como uma "sobremesa cremosa".
- Na época das amas de leite, essas mulheres eram obrigadas a alimentar primeiro
os filhos dos patrões e seus filhos recebiam apenas o leite do fim.
Conseqüentemente recebiam toda a gordura e muitas vezes eram castigadas
porque seus filhos cresciam mais que os filhos dos patrões! (3,5,6)
Bibliografia
- SABRÁ, Aderbal et al. Temas de pediatria 59 : alergia alimentar. In: CONGRESSO NESTLÉ, Rio de Janeiro, 1995.
- ACCIOLY, Elizabeth et al. Nutrição em obstetrícia e pediatria. Rio de Janeiro: Ed.Cultura ´Médica,2003.
- EIGENMANN, Philippe A. et al. Alergias alimentares. In: ANAIS NESTLÉ- A ATOPIA NA INFÂNCIA, Switzerland, 2000.
- GUYTON, Arthur C. ; HALL, John E. Tratado de fisiologia médica. Rio de Janeiro : Ed. Guanabara Koogan, 9ª edição, 1997.
- MILLA, Peter. Desenvolvimento da estrutura e das funções neuromusculares do trato gastrintestinal. In: NESTLÉ NUTRITION WORKSHOP- FUNÇÕES GASTRINTESTINAIS, Montreal, Canadá, 1999.
- PORTERO ,Kátia Cristina da Cruz; RODRIGUES, Érika Marafon. Aspectos clínicos e imunológicos da alergia alimentar. In: REVISTA NUTRIÇÃO EM PAUTA - Setembro/Outubro,2001.
- SABRA,Aderbal. Diarréia Aguda e Crônica em Pediatria,capítulo 34: Alergia ao leite de vaca, Págs. 328-356, ed. Cultura Médica, 4ª edição, 1994.